Serra de Minas --:-- / Seul --:--  
Mina.Choi
Modo Noturno ·22 jul 2026

02:40 aqui. 14:40 em Seul.

Todo mundo que descobre que eu durmo tarde acha que é insônia.

Não é. É matemática.

Minas tem doze hora de diferença de Seul. Exatas, redondas, sem meia hora estranha no meio. Quando aqui é meia-noite, lá é meio-dia. Quando aqui é três da manhã, lá é três da tarde e todo mundo que eu conheço tá acordado, no meio do dia, vivendo.

Então eu tenho duas opção. Ou eu durmo no horário daqui e falo com as minha amiga por mensagem que chega doze hora depois, sempre atrasada, sempre respondendo uma conversa que já acabou. Ou eu acordo de madrugada e converso.

Eu escolhi a segunda.


Tem um quarto nessa casa que não parece com o resto da casa.

O resto é madeira, lenha, panela, coisa de terra. Esse quarto é roxo. Tem LED, tem cadeira de gamer, tem monitor, tem microfone naquele braço articulado, tem os boneco que eu trouxe na mala e que ocuparam espaço que devia ter sido de roupa de frio.

As pessoa que vêem os dois acham que são duas pessoa diferente. Eu entendo. Também acharia.

Mas é o mesmo lugar e o mesmo motivo. Aquele quarto é o único cômodo dessa casa que ainda tá em Seul.


Ontem eu entrei às 02:40. Lá era 14:40 de quarta.

A Hyejin tava no intervalo do trabalho dela e entrou com o fone daquele jeito de quem tá em escritório e não pode falar alto. O Jun tava em casa e tava com barulho de obra do vizinho no microfone dele. A gente jogou mal, perdeu duas vez, e ninguém tava prestando muita atenção no jogo.

A conversa foi sobre nada. Alguém contou de um restaurante que fechou. Alguém reclamou de metrô. A Hyejin perguntou se aqui tinha internet boa e riu quando eu falei que tinha, porque ela achava que eu tinha ido morar numa floresta sem luz.

Nada. A gente conversou sobre nada por duas hora.

E eu não sei explicar direito o quanto eu precisava conversar sobre nada. Aqui tudo que eu falo é importante — eu falo com o vizinho sobre lenha, com a senhora sobre o pote, com vocês sobre o que eu tô aprendendo. Tudo tem assunto. Faz semana que eu não falo besteira com alguém que já me conhece.

Às 04:50 a Hyejin falou que tinha que voltar pra reunião. Eu olhei pela janela e o céu daqui já tava começando aquela coisa cinza antes de clarear.


O jogo não é o ponto e eu levei um tempo pra perceber isso. Eu não jogo porque eu amo esse jogo — a gente joga mal e nem liga. O jogo é só a desculpa que faz duas hora de conversa não parecer uma ligação com hora marcada.

É isso que eu não consigo explicar pra quem pergunta por que eu não durmo. Eu não tô fugindo daqui. Eu gosto daqui. Eu escolhi aqui.

Só que eu mudei dezoito mil quilômetro e o meu relógio de dentro não mudou junto. Ele ainda acha que é hora de estar acordada quando Seul tá acordada.

Provavelmente um dia isso muda. Provavelmente vai chegar um mês em que eu durmo às dez e acordo com o sol e não sinto falta, e quando isso acontecer vai ser uma coisa boa e vai ser uma perda ao mesmo tempo.

Ainda não é esse mês.

02:40 aqui. 14:40 lá. Vou ligar o computador.

Eu escrevo primeiro aqui.

Uma carta por semana, o texto inteiro.

Sem spam.