Um moço escreveu que é fácil pra mim
Um comentário de ontem: "fácil filosofar com dinheiro no banco."
Eu não vou responder ele lá. Vou responder aqui, uma vez, e depois nunca mais.
Ele tem razão.
Eu não vim pra cá fugindo de conta pra pagar. Eu saí da agência com dinheiro. Não é fortuna de novela, mas é o suficiente pra eu passar um tempo sem trabalhar e é o suficiente pra picape que tá ali na frente. Se eu tivesse que escolher entre comprar lenha e comer, esse blog seria outro blog e eu provavelmente não teria vindo.
Então sim: eu comprei esse silêncio. Ele não foi de graça e ele não tá disponível pra todo mundo, e eu acho horrível quando gente na minha situação escreve como se fosse questão de coragem. Não é coragem. É saldo.
Mas eu quero contar o preço, porque o moço só viu a parte de cima da conta.
Eu entrei com dezesseis ano. Assinei um contrato que eu não entendi e que meus pai leram por cima porque eles também não entendiam. Sete ano depois eu saí com dinheiro e com uma coisa que eu ainda não sei o nome.
Nesses sete ano eu não escolhi meu cabelo. Não escolhi meu peso — tinha número, tinha balança, tinha reunião sobre o número. Não escolhi com quem eu andava em público. Namorar era proibido por contrato e eu assinei isso aos dezesseis, o que é uma frase que eu só consegui achar estranha depois dos vinte.
Eu troquei sete ano do meu corpo por esse dinheiro. É uma troca. Eu fiz. Eu não fui obrigada, fui convencida, que é diferente e é pior de explicar.
Agora a parte honesta de verdade, que é a que eu ia querer ler se fosse ele:
Eu não sei se valeu.
Eu não vou terminar esse texto falando que valeu porque eu tô em paz na montanha. Eu não tô em paz, eu tô na semana quatro e sem dormir direito. E eu não vou falar que não valeu, porque o dinheiro é real e ele é literalmente o motivo de eu poder escrever isso de manhã de terça sem patrão.
Eu tenho vinte e três ano e eu já fiz a maior troca da minha vida, e eu vou passar provavelmente uns dez ano descobrindo se foi boa.
Isso é o que essa parte do blog é. Não é lição. É eu fazendo a conta em voz alta, com a calculadora quebrada.
O moço tá certo que é mais fácil pra mim. Ele só tá errado em achar que fácil é a mesma coisa que resolvido.