Quarenta minuto rachando lenha
Ontem eu levei quarenta minuto pra rachar lenha que dava pra duas noite. Eu cronometrei sem querer, porque eu tinha posto um alarme pra outra coisa e ele tocou no meio.
Quarenta minuto.
Em Seul, quarenta minuto era uma reunião. Era o tempo de ir da agência até o estúdio se o trânsito ajudasse. Era metade de uma sessão de dança. Era a janela que eles davam entre uma coisa e outra, e essa janela era tão exata que a gente comia em pé pra ela caber.
Ninguém nunca me deu quarenta minuto pra nada. Quarenta minuto sempre foi de alguém.
E ontem eu gastei quarenta minuto batendo machado em pedaço de madeira, mal, errando, parando pra descansar o braço.
Aqui é onde eu deveria escrever que foi libertador.
Não foi. Foi esquisito.
A parte que ninguém conta sobre trocar a agenda por tempo é que agenda não é só prisão. Agenda também é resposta. Enquanto tem alguém decidindo por você, você nunca precisa descobrir se o que você faz vale alguma coisa — já vem decidido que vale, tá no papel, tem gente pagando.
Quando ninguém decide, cada coisa que você faz vira uma pergunta. Quarenta minuto rachando lenha: isso foi bom uso da minha vida? Eu não sei. Não tem prancheta. Não tem ninguém pra falar "agora isso, depois aquilo".
Eu fiquei olhando a pilha de lenha e ela me pareceu ao mesmo tempo a coisa mais concreta que eu já fiz e a mais inútil.
O que eu troquei não foi dinheiro por simplicidade. Isso é bonito e não é verdade.
Eu troquei uma vida onde cada minuto era decidido por outra pessoa por uma vida onde nenhum minuto é decidido por ninguém. Inclusive por mim, que é a parte que eu não previ.
Eu achava que quando tirassem a agenda ia sobrar eu. Sobrou espaço. Não é a mesma coisa.
Eu tô escrevendo isso e já sei o que vão comentar: reclamando de ter tempo livre.
Não é reclamação. É que eu passei sete ano querendo isso e eu chego aqui e descubro que eu não sei usar. É tipo ganhar um instrumento caro e não saber tocar. A culpa não é do instrumento.
A lenha secou bem. Queimou bonito ontem à noite. Durou as duas noite que eu calculei.
Talvez seja isso. Talvez a resposta não seja grande. Talvez seja só: quarenta minuto, duas noite quente, e eu aprendendo devagar que nem toda hora precisa render.
Mas eu ainda não acredito nisso. Tô só escrevendo pra ver se acredito depois.