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Mina.Choi
O Que Eu Troquei ·7 jul 2026

Quarenta minuto rachando lenha

Ontem eu levei quarenta minuto pra rachar lenha que dava pra duas noite. Eu cronometrei sem querer, porque eu tinha posto um alarme pra outra coisa e ele tocou no meio.

Quarenta minuto.

Em Seul, quarenta minuto era uma reunião. Era o tempo de ir da agência até o estúdio se o trânsito ajudasse. Era metade de uma sessão de dança. Era a janela que eles davam entre uma coisa e outra, e essa janela era tão exata que a gente comia em pé pra ela caber.

Ninguém nunca me deu quarenta minuto pra nada. Quarenta minuto sempre foi de alguém.

E ontem eu gastei quarenta minuto batendo machado em pedaço de madeira, mal, errando, parando pra descansar o braço.


Aqui é onde eu deveria escrever que foi libertador.

Não foi. Foi esquisito.

A parte que ninguém conta sobre trocar a agenda por tempo é que agenda não é só prisão. Agenda também é resposta. Enquanto tem alguém decidindo por você, você nunca precisa descobrir se o que você faz vale alguma coisa — já vem decidido que vale, tá no papel, tem gente pagando.

Quando ninguém decide, cada coisa que você faz vira uma pergunta. Quarenta minuto rachando lenha: isso foi bom uso da minha vida? Eu não sei. Não tem prancheta. Não tem ninguém pra falar "agora isso, depois aquilo".

Eu fiquei olhando a pilha de lenha e ela me pareceu ao mesmo tempo a coisa mais concreta que eu já fiz e a mais inútil.


O que eu troquei não foi dinheiro por simplicidade. Isso é bonito e não é verdade.

Eu troquei uma vida onde cada minuto era decidido por outra pessoa por uma vida onde nenhum minuto é decidido por ninguém. Inclusive por mim, que é a parte que eu não previ.

Eu achava que quando tirassem a agenda ia sobrar eu. Sobrou espaço. Não é a mesma coisa.


Eu tô escrevendo isso e já sei o que vão comentar: reclamando de ter tempo livre.

Não é reclamação. É que eu passei sete ano querendo isso e eu chego aqui e descubro que eu não sei usar. É tipo ganhar um instrumento caro e não saber tocar. A culpa não é do instrumento.

A lenha secou bem. Queimou bonito ontem à noite. Durou as duas noite que eu calculei.

Talvez seja isso. Talvez a resposta não seja grande. Talvez seja só: quarenta minuto, duas noite quente, e eu aprendendo devagar que nem toda hora precisa render.

Mas eu ainda não acredito nisso. Tô só escrevendo pra ver se acredito depois.

Eu escrevo primeiro aqui.

Uma carta por semana, o texto inteiro.

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