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Mina.Choi
Seul → Minas ·1 jul 2026

Em Seul eu nunca vi o céu inteiro de uma vez

Isso não é figura de linguagem, é literal. Eu tinha vinte e três ano e nunca tinha visto o céu inteiro.

Em Seul sempre tem prédio comendo um pedaço. Você olha pra cima e vê um retângulo, um triângulo, uma faixa entre dois edifício. O céu chega até você já cortado, do tamanho que a cidade deixou. Eu não sabia disso porque não tinha comparação. Céu com formato de rua era o céu.

Aqui o céu começa no chão de um lado e acaba no chão do outro.

Demorou pra eu achar isso bonito. Na primeira semana me deu um enjoo leve, tipo tontura. Meus olho não sabiam onde parar. Cidade te dá borda pra tudo — você sempre sabe onde uma coisa acaba. Aqui nada acaba, só vai ficando mais azul até virar morro.


A outra diferença é o vizinho.

Na semana passada apareceu uma senhora no portão com um pote. Ela não avisou, não mandou mensagem, não perguntou se dava. Ela veio, entregou o pote, falou que era pra eu comer hoje senão estraga, e foi embora antes de eu conseguir montar uma frase em português.

Eu fiquei com o pote na mão em pânico.

Porque na Coreia isso tem regra. Vizinho traz comida, você devolve o pote cheio. Nunca vazio, isso é quase ofensa. E não pode ser qualquer coisa: tem que ter mais ou menos o mesmo valor do que veio, senão você tá falando ou que ela deu pouco ou que você tá se achando. Isso é uma conta que eu sei fazer desde criança sem pensar.

Eu passei três dia fazendo essa conta com um pote de tutu de feijão.


Fui devolver no sábado, com pão que eu comprei na cidade porque eu não confio ainda no que eu faço. Levei o pote e o pão e ensaiei uma frase no caminho.

Ela abriu o portão, olhou o pão, e falou: "ah, mas num precisava não, uai."

E aí ela pegou. Falou que não precisava e pegou. E entrou pra dentro. E não pareceu nem um pouco que aquilo tinha sido uma negociação.

Eu fiquei uns segundo parada no portão tentando entender se eu tinha ganhado ou perdido.


Ainda não entendi. Acho que a resposta é que não tinha jogo. Que ela trouxe comida porque tinha comida sobrando e eu tô sozinha, e pegou o pão porque pão é bom, e as duas coisas não são partes da mesma conta.

Em Seul quase tudo é parte da mesma conta. Presente é dívida com prazo. Elogio é obrigação de retribuir. Até o jeito que você enche o copo de alguém na mesa tem hierarquia dentro.

Eu passei sete ano numa indústria onde nada era só o que parecia ser, e agora eu tô num lugar onde uma senhora me deu tutu de feijão porque sobrou tutu de feijão.

Isso me deixou mais desconfiada do que emocionada, e eu sei que isso fala mais de mim do que dela.

Eu escrevo primeiro aqui.

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