Três tentativa pra acender a lareira. Três.
Eu tenho um problema e não é falta de lenha. Eu comprei lenha. Comprei muita lenha, comprei de primeira, o moço trouxe de caminhonete e empilhou ali do lado e eu paguei e achei que tinha resolvido o inverno.
Eu tinha comprado lenha verde.
Eu descobri isso depois de três noite fazendo fogo que acendia, fumaçava a casa inteira, chiava, e morria. Eu culpei o fósforo. Culpei o papel. Culpei a chaminé, culpei o vento, culpei a minha técnica.
Na quarta noite eu tava sentada no chão na frente da lareira, com fumaça nos olho, a dez grau, batendo isqueiro num negócio molhado, e eu tive que aceitar: eu não sei o que é lenha.
O vizinho me explicou no dia seguinte em uns quarenta segundo.
Ele pegou um pedaço, olhou a ponta, e falou que dava pra ver pela cor do corte e pela racha. Madeira seca tem racha na ponta, tipo estrela. A minha tava lisa. Ele bateu dois pedaço um no outro e falou pra eu escutar: fez um som surdo, "toc" mole. Seca faz "tec", agudo. Ele bateu dois da pilha velha dele pra eu comparar e a diferença é escandalosa quando você escuta os dois.
Aí ele falou a frase que eu vou lembrar: "essa aí ainda tá viva, uai. Ela tá com a água dela dentro."
Eu comprei uma árvore. Não comprei lenha. Ninguém me enganou — o moço vendeu exatamente o que eu pedi, porque eu pedi "lenha" e não sabia que existia mais de um tipo.
O que eu aprendi, pra você não passar por isso
- Racha na ponta. Seca racha tipo estrela quando perde água. Lisa é nova.
- O som. Bate dois pedaço. Agudo é seca, surdo é verde. Isso funciona mesmo, testei umas vinte vez.
- O peso. Verde é pesada de água. Depois que você sabe, dá pra sentir na mão.
- Tempo. Me falaram que precisa de seis mês a um ano empilhada e coberta em cima mas aberta dos lado. Isso quer dizer que a lenha que eu comprei em julho é lenha do ano que vem.
- Casca soltando é bom sinal.
A parte que eu fico pensando: isso não é conhecimento que se compra.
Eu tinha o dinheiro pra comprar lenha e comprei errado, porque a coisa que faltava não era dinheiro, era saber olhar. E saber olhar o vizinho tem porque ele viu o pai fazer, que viu o pai dele fazer.
Em sete ano de agência eu aprendi um monte de coisa difícil. Aprendi a marcar coreografia em dois dia. Aprendi a dormir sentada. Aprendi a chorar sem estragar maquiagem, que é uma habilidade real e que eu não recomendo pra ninguém.
E eu chego aqui e não sei distinguir uma madeira de outra, que é uma coisa que criança daqui sabe.
Eu empilhei a lenha verde do lado de fora, coberta em cima. Ela vai servir. Ano que vem.
Comprei um pouco de seca com o vizinho pra agora, e ele não quis me cobrar, e eu insisti, e a gente ficou os dois discutindo educadamente por uns cinco minuto até ele aceitar metade. Isso também é uma coisa que eu ainda não entendo daqui.
Ontem o fogo pegou de primeira.